XICóATL 65

XICóATL

XICóATL: Número 65

XICóATL No 65, Octubre/Diciembre 2003
XICóATL 65

CONTENIDO:

  • Poemario: Poemas. Gerson Valle
  • Chile 11.9.1973: Un fin y un principio. Joan Jara
  • Narrativa: El cuadrúpeda. José Rafael Aguirre Sepúlveda
  • Ensayo: Maximiliano Kosteki: el artista que no dejaron ser. Luis Alfredo Duarte-Herrera.
  • Ensayo: Viendo al oeste, en el andén 3. Eduardo Coiro
  • Austria: Poemas. Wolfgang Ratz

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Poemario 
Gerson Valle

Poemas - Gerson Valle

GERSON VALLE é brasileiro, residente em Petrópolis, Rio de Janeiro, formado em Direito, com pós-graduação em Direito Internacional Público na França, Portugal e Holanda. Foi professor universitário e procurador-chefe da Fundação Nacional de Arte-FUNARTE /Ministério da Cultura (1979/1995), tendo centrado sua produção, nos últimos anos, em obras literárias, de criação (em poesia e novelística) e crítica. Tem cerca de 300 publicações em diversos periódicos, com artigos, crônicas, contos e poesia. Integra o conselho editorial do jornal "Poiésis - Literatura, Pensamento e Arte" a partir de março de 1998. Publicou, além de alguns livros jurídicos: em POESIA: "Confetes de Muitos Carnavais" - edição independente, 1982; "Passagem dos Anos" - Editora Pirata, Recife, Pe, 1984, e "Aparições" - Poiésis, 2001; TRADUÇÃO e estudo introdutório de "Lendas" de Gustavo Adolfo Bécquer, Poiésis, 1997 a BIOGRAFIA: "Jorge Antunes, uma Trajetória de Arte e Política", editora Sistrum Ltda, Brasília, janeiro de 2003 e a NOVELA "Os souvenirs da prostituta", Posto Seis, 2003.
Possui obras musicadas (poesia e teatro), a maior parte com apresentações em vários concertos e publicadas) pelos compositores Jorge Antunes, Odemar Brígido, Ernani Aguiar, Guilherme Bauer e Ricardo Tacuchian. Sua peça infantil "Dança das Árvores" foi encenada em Petrópolis em 2001.

Reflexo

Foi pensando em você que eu escrevi
a letra da canção sentimental
que começa e termina tal e qual
este mesmo soneto escrito aqui.

Retive nas palavras o que vi
da imagem de expressão dimensional,
além de todo bem e todo mal,
você por mim pensada ou que é em si.

Não sei se o canto é só um eco brando
de seu corpo em mim, vindo e se formando
enquanto vou compondo o seu reflexo.

Talvez seja você que nasça quando
projeto o pensamento e vou voando...
Mas, pensando em você tudo fez nexo.

Guardados

Num álbum de fotos
guardado no armário
tem uma em que estou
não bem como sou.

Talvez seja um sonho captado na câmara; momento em que a imagem andou sem meu corpo, ou meu pensamento liberto vagou. Só sei que estou lá, sem que eu consiga me lembrar daquela minha indisfarçável disposição, na feição que sou eu, mas não sou.

Um dia eu sumi
do mundo e de mim.
Depois eu me vi
na ausência das horas
em minha memória-
metáfora só.
Por onde estaria
meu ego, meu id?
Será que eu teria
sido eu sem limite?

Teria dormido e saído sonâmbulo por recanto improvável de algum pesadelo? Passado a espaços não verdadeiros? Despido das feições herdadas? Tragado pelo ar de mágica de alguma estranha máquina fotográfica? Ou ficado sentado em banco de praça
onde nada passa
que convenha lembrar? (Será que as máquinas fotográficas conseguem reter a imagem de onde não há passagens capazes de nos impressionar?)
Às vezes eu penso em pregar uma peça no álbum, pegando-o desprevenido. Quem sabe assim eu deixe de me encontrar nas poses já conhecidas? E na mais estranha foto de um eu que não sou eu, sem ser bonito nem feio
suma a mágica em que veio
(A todo momento as fotos se mostram? Mesmo quando no armário fechado à chave continuam a mostrar as imagens paradas, atentas? A quê? Se não há quem as olhe na expressão-surpresa de um único e definitivo enquadramento...?)

O fundo do armário opaco serve para esconder os sonhos e perenizar a vida escondida nos cadáveres. Meu passado lá guardado lembra-me até a postura esquisita,
esquecida.
Serei, ali, meu irmão não tido? Algum barco retido na garrafa? Por baixo daquelas roupas haveria a mesma pele que coço e limpo nos banhos? Meus olhos se despedem de alguma visão passageira, retidos, no entanto,
para o nosso espanto,
de forma perene, na filtragem da lente...

As fotos talvez presenciem, indiferentes, a perplexidade por cada momento vivenciado em todas as gentes... Prefiro deixá-las no abandono do armário com a mudez despreocupada sem qualquer questionamento, tango louco ou lucidez. E aquele personagem,
cuja imagem
é meu fantasma, transfira o meu perfil para um outro plano...

Dor metafísica

Entrou em meu corpo uma dor,
cada dia colocada numa etapa
do que sou.
Ora aponta no baço,
batata da perna,
costela...
Seu percurso indefinido
me coloca mal dormido.
Se ao menos pudesse traçar-lhe
a mudança num mesmo caminho,
e vê-la chegar ao dedo mindinho,
poderia ter certeza
que ela dali
sairia de mim,
e eu de novo poderia
respirar como quem não sabe
nada sobre o ar que entra e sai
das ventas, dos ventos, das vanta
gens de viver sem se dar conta...

Ludwig van Beethoven

Homem não chora
nem ri pra fora.
A fera interna
constrói com fúria;
a face austera
é corpo ausente,
enquanto a mente
fabrica a vida.

De posse apenas de alguns poucos dados,
mãos para trás, ao vento de Viena,
do sofrimento tira aprendizado,
como de toda a natureza vista, ouvida,
nasce o seu próprio som dentro do cérebro.
Tudo está lá, formado em pouca escola,
basta fechar a face às modas tolas,
fechar-se em rocha de solidez eterna,
ouvindo apenas sons de seu comando interno.
E, na vontade férrea, em pautas frias,
reproduzir com dores as alegrias!

Gustav

O andar trôpego de Mahler
muda de sentido suas melodias
após o início anunciado,
não se sabendo se vai cair,
virar a página para um novo século,
partitura imponderável
de um organismo tenso, todo de nervos em vibrato.

Mahler caminha desengonçado,
sua magreza quase se desfazendo em saltos,
não prestando muita atenção
na forma de dobrar a perna,
passo desencontrado,
o resto do corpo apenas obedecendo
a vontade férrea de marchar,
cabeça voltada a outro lugar...

Ao longe soam algazarras
em nada análogas
à dança em sussurro
do primeiro plano simultâneo.
Música em mosaico, registro
do encerramento de uma época,
alegres passagens românticas,
em meio à chuva de marchas fúnebres,
enterro de um mundo futuro...
Para onde vai o passo de Mahler,
no desajeito de seus infortúnios?
Qual desgraça atrelada à sua raça?

(Mais tarde Hitler viria tirar seu busto da Ópera de Viena, como se o tropeço de suas pernas fossem devidos à formação judaica de uns pés tortos - todo judeu é claudicante, diria. Hitler não percebia o som trágico
atrelado ao andor de antiga dor,
Nossa Senhora que chora
das procissões católicas,
ou mesmo o nirvana do Oriente,
ao som do sempre, sempre, sempre,
repetido e coerente
na paz dos pássaros, despedida...)

No estrado, em frente à orquestra,
não precisa levantar o pé.

Não há música que passe,
leben, lieben ou lied,
tanto lirismo num andar solto!
Caminha lento, adagietto,
seu passo, parecendo trôpego,
é vôo de pássaro
pisando nuvens...

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: valle@compuland.com.br

Chile 11.9.1973

Un fin y un principio - Joan Jara

Una de las más prominentes víctimas del golpe militar llevado a cabo por el "chacal del Mapocho", augusto pinochet, fue el director de teatro, poeta, músico y compositor Víctor Jara. YAGE, Asociación pro Arte Ciencia y Cultura Latinoamericanos de Austria ha dedicado durante todo el més de septiembre su espacio radial Poesía y Música Latinoamericana, el cual se transmite todos los domingos entre las 19:00 y las 20:00 horas en la Radio Fabrik de Salzburgo (www.radiofabrik.at) , a la vida y obra de tan querida personalidad continental. A continuación publicamos un aparte del libro"Víctor Jara, un canto no truncado", escrito por su esposa Joan Jara (Editorial LAR, Santiago de Chile, 1988).

Un fin y un principio

El 15 de octubre de 1973, mientras abordaba el avión en el aeropuerto Pudahuel de Santiago, escoltada por el cónsul británico, yo era una persona carente de identidad. Lo que yo hubiera sido - ¿bailarina, coreógrafa, profesora esposa? -, había dejado de serlo. Miré a mis dos hijitas mientras se acomodaban en sus asientos delante de mí, pálidas y sumisas, sin siquiera alborotar por cual de las dos ocuparía el asiento de la ventanilla, y tuve plena conciencia de que ahora dependían enteramente de mí. Yo por cierto, las necesitaba a ellas para seguir viviendo. Sabía que una parte de mi ser había muerto con un hombre cuyo cadáver yacía ahora en un ataúd, en un nicho de hormigón, en lo alto del muro trasero del Cementerio General de Santiago.
Dejé el nicho cubierto con una tosca lápida en la que se leía, sencillamente:

VÍCTOR JARA
14 de septiembre de 1973

La fecha estaba equivocada, entonces no había forma de saber exactamente qué día había sido asesinado mi marido. No dejé espacio para flores. Las estrechas repisas que con ese fin suelen tener los nichos resultan desnudas y tristes si están vacías. Yo no podía saber que a la tumba de Víctor nunca le faltarían flores, que personas desconocidas recurrirían a cualquier medio para trepar y atar latas y potes con trozos de alambre o de cuerda para dejar sus ofrendas, aún corriendo el riesgo de ser arres-tadas.
Yo estaba conmocionada, pero el dolor y la agonía de Víctor moraban en mi interior, me acosaban en un sentido muy real. No podía cerrar los ojos sin ver su cadáver, el depósito, horripilantes imágenes de los acontecimientos de las últimas cuatro semanas, el resultado de la violencia militar aplicada implacablemente contra civiles desarmados, una violencia tan desproporcionada, tan aniquiladora, que parecía imposible que semejante plan hubiese sido concebido en Chile.
Me dominaba una sensación de lucha inconclusa, la lucha de un pueblo que intentaba modificar pacíficamente su modelo social obedeciendo las normas que sus enemigos predicaban pero no practi-caban. Sentía que no era una persona sino mil, un millón; el sufrimiento no era sólo personal, sino un dolor compartido que nos unió a muchos, aunque nos viésemos obligados a separarnos, mientras algunos permanecían en Chile y otros huían a cualquier rincón del mundo.
Yo fui de los que se marcharon. Tenía pasaporte británico, pero después de casi veinte años en Chile retornaba a Inglaterra convertida en una extranjera. En ese momento estaba pensando en caste-llano y no en inglés. No tenía trabajo ni dinero, y todas nuestras posesiones fueron metidas en
tres maletas; en lugar de ropa nos llevamos fotos, cartas, discos.
El avión iba casi vacío. Apenas había comenzado el aluvión de refugiados; la mayoría todavía esperaban visados, amontonándose en las embajadas extranjeras de Santiago. Con sus pulcros trajes escoceses y fáciles sonrisas, las azafatas parecían irreales, de cartón. Mientras veía desaparecer Santiago bajo mis pies, gris borrosa en el llano del valle central, me pregunté cuándo regresaría, cuándo volvería a ver a mis amigos; después aparecieron los cerros de la precordillera con su vegetación achaparrada - ¿era aquél el valle de Maipo, donde habíamos pasado tantas vacaciones? -; luego la cordillera, la gran masa de altas cumbres, un solitario desierto de hielo y nieve y dentadas rocas, que siempre resulta sobrecogedor aunque lo atravieses muchas veces, y el último adiós a Chile, la patria de Víctor, el hogar de mis hijas... y el mío.
Las montañas se alejaron y surgió la extraña monotonía de la pampa argentina, que se extendía al frente, hasta el Océano Atlántico. No tenía la menor idea de qué me depararía el destino. Sólo sabía que sentía la urgente necesidad de comunicarme, aunque el medio de la danza, que siempre había sido el mío, ya no me parecía pertinente ni posible. Tenía que aprender a hablar, a contarle al mundo exterior, en nombre de quienes no podían hacerlo, los sufrimientos del pueblo, del país que durante tantos años había sido mi hogar.
Las niñas dormitaban en sus asientos. Despierta y a solas, sentí que Víctor estaba con nosotras, como si pudiera alargar la mano y tocarle. Sabía que debía adaptarme a la vida sin él, pero al mismo tiempo me daba cuenta de que siempre formaría parte de mí, como si al morir hubiese llegado a habitar en mí con una intensidad de la cual yo no era menos consciente mientras estuvo a mi lado. Eso me dio valor y me hizo comprender que nunca estaría sola. Haría todo lo que estuviera a mi alcance para que Víctor, a través de su música y sus grabaciones, continuara trabajando por la causa que había hecho propia. Sus asesinos habían juzgado erróneamente el poder de la canción.
No podía dormir. Noté que estaba aferrada a mi bolso con las manos agarrotadas. En un intento por relajarme, lo abrí y saqué los papeles que contenía. Estaba mi tarjeta de identidad chilena, con las huellas digitales, la fotografía y la formal descripción de esa persona tan lejana que había llegado a Chile diecinueve años atrás: JOAN ALISON TURNER ROBERTS. Palpé mi pasaporte británico. Lo cogí y lo abrí: "Nombre del titular: Señora Joan Alison Jara". Me alegré de que figurara el apellido de Víctor. En el futuro lo usaría con orgullo y como un desafío.
Ahora Manuela y Amanda dormían tranquilamente. Me pregunté a donde las llevaría la vida: cuando yo era pequeña, jamás habría imaginado que algún día me encontraría huyendo de un país distante y en condición de refugiada.

Joan JARA
CHILE

Narrativa
José Rafael Aguirre Sepúlveda

El cuadrúpedo - José Rafael Aguirre Sepúlveda

José Rafael AGUIRRE SEPÚLVEDA es psicólogo y educador, ha publicado cuentos y ensayos en revistas y periódicos. Es miembro del Comité Editorial de la revista cultural RAMPA (Medellín).

El cuadrúpedo

"Señor... Señor... Se le cayó la billetera". Detengo mi marcha, incrédulo palpo mis bolsillos y compruebo que en efecto se me ha caído la billetera. Miro hacia atrás para ver de dónde provenía esa voz que de momento imaginé de un fortachón y no veo a nadie. Al fin, entre el bosque tijereteante de piernas de transeúntes, descubro al hombrecillo estirando una mano para entregar mi pertenencia; la misma mano que en ese momento dejó de ser pie. De tanto ir en cuatro, su espinazo se arqueó hacia el suelo dejándolo vacío de espaldas. Ante la prominencia de sus cuadriles y omoplatos, su tronco aparentaba un desvencijado puente colgante. No obstante, un rostro varonil y una sonrisa pareja reñían con aquella humanidad cuadrúpeda. En segundos leí en aquel ser una infinita historia de miseria y superación que mis ojos quisieron evitar.
Le recibí mi billetera con una mezcla de ademanes que embotaron todo acto de cortesía y sentido común. Me sentí desenmascarado en aquello que aprendí sobre convivencia social, fraternidad, tolerancia y no sé que cosas más. Sin poder evitarlo, la palabra perro pasó fugaz por mi mente. Con el fin de atraer sentimientos más cristianos la reprimí como expulsando un gusano de mi cerebro.
Cuando comprobé que nada me faltaba, entregué al rescatador de mis documentos un billete de los grandes y le dije: "Muchas gracias por su honradez", de inmediato me respondió: "Como ve, mi cuerpo no es recto pero mi honestidad sí". "Hasta pronto", me despedí y continué mi camino pensando en la naturaleza que nos puso erectos en el pináculo de la evolución, aunque dioses perversos insisten en hacernos también los más desdichados del universo. Me sentí feliz de ir caminando con mis piernas fuertes y ágiles. Somos malagradecidos con nuestras completudes.
Pero sucedió que ese "hasta pronto" fue demasiado pronto, porque a mis espaldas irrumpió de nuevo la vozacha del minusválido: "¡Oiga mi señor... Hágame un favor! Ayúdeme a pasar la calle". Sus palabras no fueron tan elocuentes como su mirada. Sus ojos sí que me hablaron: "Hermano, ayúdeme a pasar la calle". Era a mí a quien se dirigía. Y ese yo arrogante que puede caminar, trotar, correr, saltar, huir... se detiene, duda si continúa su camino o ayuda al necesitado. Ese yo que en los entresijos de su conciencia invoca sentimientos piadosos y descubre que entre más altruismo se ponga en algunas acciones, menos embarazosas, ridículas o deprimentes pueden parecer. El altruismo vence el rostro tenebroso de la muerte. Tan tanático es el encuentro de un hombre con otro. Me despojé de ese yo fatuo y quedé listo para auxiliar a mi semejante a pasar la calle. Era obvio que no podía tomarlo de las manos y tratar de pasar caminando la gran avenida. Pareceríamos un par de danzarines lunáticos. Entonces, con mi brazo derecho lo tomé por la cintura, lo levanté y a grandes zancadas lo transporté y lo descargué al otro lado como si fuese un jarrón de porcelana china. Ante lo inusual de la acción no reparé si era liviano o pesado, pero al tocarlo se esfumó en mí todo escrúpulo. Tocar al otro es vencer allí donde las armas han fracasado.
Me acordé de mi niñez, cuando en la escuela jugaba a luchar con otros niños, el goce era inmenso, pero un día el prefecto de disciplina nos castigó vociferando: "Juego de manos, juego de villanos".
Seguimos caminando calle arriba. Yo debía ir por mi auto parqueado tres cuadras más adelante. Era increíble ver la habilidad del hombrecito para ir al mismo ritmo de mis zancadas. Me invadió la sensación de verlo como a un perro callejero que me persigue. Así me ha ocurrido que, por alguna química de empatía entre hombre y animal, he llegado a casa seguido por un can del que no puedo ser su amo.
Una chica rubia de ojos melancólicos pasó en sentido contrario y él, como un sabueso avezado, estiró los labios y olfateó las moléculas de aire dejadas al paso de la rubia y dijo: "Uy... esta mamacita está en sus días". Y yo, como un turista asombrado en su terruño, le pregunto: "¿Cómo así?". "Pues claro -me responde socarrón- mi mundo está a treinta centímetros del suelo, a esta altura, o mejor dicho, bajeza, los sonidos y los olores son diferentes. Por ir tan cerca al piso, el olfato y el oído se me han desarrollado diferente. Como ve, mucho de perro tiene mi existencia.
Esta vez la palabra perro fue pronunciada por él mismo. Hacía gala de una infinita aceptación de su destino y hasta podía burlarse de él.

- ¿Y a dónde se dirige? -l e pregunté para conjurar la sensación de ver a un perro que me sigue.
-Voy para las mansiones del Barrio Elite... Un trabajo especial.
- Yo paso por ahí, con mucho gusto lo puedo arrimar. ¿A qué se dedica? - le pregunté temeroso de ser interpretado de sarcástico.
- Como ve, soy un tipo raro. Me contratan a veces para hacer cosas raras, aunque no demasiado, pues la humanidad es peor.
- No le entiendo - le increpé sinceramente.
- Claro, que va a entender. Los asuntos raros son difíciles de comprender y de explicar.

Guardamos silencio hasta el parqueadero, allí le invité a subirse en el asiento delantero del auto y empecé a manejar despacio. Sentado a mi derecha me pareció el más igual de los mortales. No hay duda, somos madera para que el mundo moldee sus despojos.

- Me deja usted inquieto - le dije invitándolo a seguir con la conversación.
- Si quiere saber de mi oficio, vaya a El Dragón Verde y mire el show de media noche.
- ¿Algo de circo? - le pregunté con ingenuidad.
- No... Tiene algo de musical - me respondió.
- ¿Toca usted algún instrumento?
- No, qué va... Tampoco bailo como puede darse cuenta. Los shows de media noche tienen todos que ver con el sexo. Yo intervengo.
- No alcanzo a imaginar de qué manera - le expresé mirando su rostro como una isla rodeada de humanidad descuajaringada.
- Con este cuerpo nadie daría un peso por mí, pero en asuntos de espectáculo hay clientes que se inclinan más por lo grotesco que por lo perfecto. El erotismo tiene muchos caminos. ¿Ha oído el cuento de La Bella y la Bestia? Bueno, ya adivina usted quien es la bestia.
- Le entiendo, pero en concreto, ¿cómo es el show?
- Seguro usted me cree menos de medio, pero aquí donde me ve, torcido y todo, mi sistema endocrino funciona a las mil maravillas. Como le dije, durante la función yo soy la bestia. Una bestia bastante real ¿no cree usted? Me visten con una piel de león, por supuesto que con melena, cola y unos colmillos así de grandes y debo rugir GRRRRRH ... sacar las uñas y juguetear con Margoth la Dulce que hace el papel de la bella. Hay luces, música de fondo, sonidos de la selva... Luego me voy arrechando pero de verdad, nada de teatro. Es cuando mis amigos dicen que yo no tengo cuatro patas sino cinco. Después de ciertos juegos preliminares con la bella, le voy arrancando el vestido a uñadas y ella debe actuar entre huir o dejarse. Al fin se deja loca de gozo y me toca hacerlo ahí a la vista del público que aplaude enloquecido. Yo no soy psicólogo, pero mi actuación va de lleno a exaltar ese felino que los hombres llevamos por dentro y ese deseo inconsciente que las mujeres tienen de ser poseídas a zarpazos.
- Qué bárbaro. Me deja usted asombrado. Vale la pena ir a verle. Pero no nos hemos presentado, mi nombre es Carlos Chaparro. ¿Cuál es el suyo?
- Dígame simplemente La Fiera Trejos, aquí tiene mi tarjeta. También actuamos a domicilio, en despedidas de solteros ... Bueno, usted sabe como son estas cosas.
- Su profesión es gozar de lo lindo - le manifesté en un tono que sonó a consuelo.
- Qué va, más bien es una condena. Daría cualquier cosa por trabajar en algo normal. Sencillamente estoy atrapado por la sed de espectáculo de la gente. Ni siquiera es un acto circense donde los niños aplauden y uno se siente feliz. Tampoco es un acto artístico. No tiene nada de estético.

Mi imaginación se hacía una marea de curiosidad y cuando la conversación se hizo más cordial, de pronto dijo: "hasta acá llego, señor Chaparro. Fue un placer conocerlo y gracias por traerme". Me despedí y le prometí que una noche de estas iría a verle a El Dragón Verde. Leí su tarjeta, decía:
MARGOTH LA DULCE Y LA FIERA TREJOS
UN ESPECTÁCULO PARA LOS SENTIDOS.
CLUB NOCTURNO EL DRAGÓN VERDE.

Adelanté el auto unos metros y paré para observar hacia dónde se dirigía el hombrecillo. Lo veo bordear el enmallado de la mansión, llega a una barrera de bambú y entra por una abertura apropiada para su cuerpo. Un pastor alemán y un bóxer se abalanzan hacia el recién llegado y a lametazos le dan su saludo perruno. Siento que mi alma lagrimea ante la escena y se abigarran en mi mente las vanas filosofías de la perfección humana. No vi a dos perros y un hombre, sino a tres perros encontrados en su condición servil a un amo. Ante la algarabía juguetona de los canes con el visitante, sale una mujer pelirroja metida en una túnica de colores y motivos tropicales, hace acallar los perros y manda entrar a La Fiera Trejos quien sube los escalones hacia el corredor y entra cerrando la puerta. Lo último que vi de él fue sus cuadriles en ese vaivén de huesos mal colocados, no obstante, sus pasos deformes mostraban la actitud de quien entra resignado al trajín de una tarea. Fiel a su destino de cuadrúpedo iba.

Dirección: Calle 81 N° 52D 160 apto. 506 La Hortensia 2, Itagüí (Antioquia) - COLOMBIA
E-Mail
: rafasoragui@hotmail.com

Ensayo

Maximiliano Kosteki: el artista que no dejaron ser - Luis Alfredo Duarte Herrera

"Miro mucho más allá de lo visible…"
Maximiliano Kosteki, 25/06/2002

El 26 de junio del 2002, en el puente Avellaneda de Buenos Aires, los jóvenes piqueteros Maximiliano Kosteki y Darío Santillán fueron asesinados por parte de la policía en el curso de una manifestación.

Maximiliano Kosteki era un joven artista que apenas había cumplido 22 años y no hacía mucho militaba en el Movimiento de los Trabajadores Desocupados (MTD) de Guernica. Al momento de su muerte estudiaba en la escuela secundaria No 15 de Lanús, con orientación artística. Allí había trabajado con pasión diferentes estilos (impresionismo, surrealismo, abstracción, elementos tomados del comic y del género fantástico) y técnicas (especialmente dibujo y grabado en color y blanco y negro), en todo tipo de materiales: telas, madera, cartón, cartulina, hojas cuadriculadas y hasta formularios y hojas del municipio. El 1 de mayo del 2002 había participado en su primera manifestación en la Plaza de Mayo y allí, delante de todos, dibujó un ángel - un ángel piquetero, como dijeron algunos de sus compañeros - con la cara cubierta y un palo en las manos.

El grupo de trabajo "LuchArte" organizó en Buenos Aires, en la fábrica recuperada Grissinópoli , entre el 28 de junio y el 26 de julio del presente año, la exposición titulada Maxi Kosteki, el artista que no dejaron ser, en la cual fueron presentadas 50 de sus obras, de los "233 nietos que son sus dibujos y pinturas", como llama la madre de Kosteki, doña Mabel Ruiz, a la obra de su hijo. La exposición fue un éxito total y sólamente a la inauguración asistieron más de 500 personas, entre las cuales se contaron numerosas personalidades de las artes plásticas y la cultura Bonaerense como Alejandro Michel, León Ferrari, Gabriela Bocchi, Javier González, Magadalena Jitrik y Luciana Morcillo.
A continuación presentaremos un ensayo de Eduardo Coiro, director de Inventiva Social, en Buenos Aires, dedicado al joven Maximiliano Kosteki.

Dr. Luis Alfredo Duarte Herrera

Ensayo
Eduardo Coiro

Viendo al oeste, en el andén 3 - Eduardo Coiro

Eduardo Coiro nació El 27 de septiembre de 1958 en Lomas de Zamora, Argentina. Es licenciado en sociología de la Universidad de Buenos Aires y escritor. Es director y editor del proyecto cultural Inventiva Social, un foro abierto en internet para escritores, especialmente argentinos, con temáticas sociales y humanas específicas.

Viendo al oeste, en el andén 3

Ellos son dos sombras largas de atardecer, siluetas recortadas a contra luz en el final del andén. Sus rostros caen en sombras ante la oscuridad que sube, implacable, desde el este. Pero allí, en el último resplandor de oro encajado entre las vías que se fugan al oeste, son seres de ilusión, en esos momentos pueden darse la mano fuerte, el abrazo fuerte, darse el alma sin que ninguna estampida, ningún terror disuelva lo humanamente dado.

Allí van y vienen las cosas en la hamaca del tiempo, van y vuelven, parecen tocar el cielo, irse definitivamente, pero retornan una y otra vez ... Ahí está el Estado fabricando mártires, el poder plantando policías como alambrados de púas.

Escucho una frase recortada en el aire, desde el bar de la estación: - Tengo que ir a trabajar y no me dejan - grita un señor por la radio 10. Hay que ir, aunque el tiempo se detenga en el lugar menos pensado, en el momento menos deseado. Como la muerte, atravesando el umbral-símbolo de una estación.

¿Qué se detiene en las calles?

Los autos, combustión sin velocidad, las gentes en su tiempo siempre urgente de llegar a algún lado, sin tropiezos, sin acontecimientos que fuercen un destino diferente.

Acordonar, no dejar pasar. También ser alguien y hacerse ver y oír.

Pero el Estado, ausente para la miseria, quiere la libertad de las calles. Liquidez sin piquetes, desde la casa al surtidor, al banco, a la oficina, a la novia, al infinito ...

Por allí, cerquita al puente, estaban las fábricas, que producían identidad como un objeto invisible. Ahora están los hipermercados, los shopping, otra geografía social que no contiene obreros ni producción. La fábrica que dejó el abismo, apenas reemplazado con dignidad, economía de subsistencia y desesperación.
¿Quién empujó a los barrios a cortar las rutas, las mercancías, las transacciones, las vidas privadas de los que pueden viajar pagando su nafta o el boleto?

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No hay nada más inútil que el acto de pura brutalidad, el cual disuelve la solidaridad con perdigonadas de terror, nada más demostrativo de la impotencia de cinco minutos antes y cinco minutos después de ...

Mucho, pero mucho de la vida cotidiana está influido por estos actos de fuerza que encubren impotencia, indiferencia, la quietud de ocio del recaudador, la tranquilidad cómplice del que cobra por ignorar ilegalidades. Pero, allí en la calle, a la vera de las estaciones hay que demostrar que al menos para el terror existe el Estado.

Es previsible que no haya nada que discutir y que allí se confirmen odios preexistentes. "a estos negros hay que matarlos a todos ". Escudos humanos, del otro lado están los especialistas en aparentar el orden, los que amurallan con un piquete legal cualquier protesta.

Morir en el hall de una estación de ferrocarril, la metáfora perfecta de un país en pérdida, morir a balazos por un agente del mismo Estado, que en un mal uso de su poder colectivo cerró miles de kilómetros de vías, estaciones de pequeños pueblos y mató pueblos enteros.
Ahora las imágenes del terror viajan por los aires, intangibles, y se multiplican al infinito en pantallas y terminales. Pero, que digo ... no es ninguna metáfora: es la llaga real y presente de un país que abandonó sus sueños en ese lugar, quietos como esos puentes de óxido entre andén y andén.

- De arriba viene bajando el saqueo - me gritan esos muchachos que veo correr entre el humo de los gases. Sí, el saqueo viene bajando a las calles, de la mano de la antigua y reciclada impunidad. Seguro que un litro de leche en Guernica sale igual o más que la leche que compran Mirta o Amalia; allí esta la muralla de los precios, infranqueable piquete sin calle, puente destruido para siempre entre unos y otros.

Paredes invisibles, rehenes que toman rehenes, ¿hay un afuera?, por el hambre o el miedo sólo se ven rejas de sombra y tristezas, calle por calle, paso por paso, acechando. No hay que caminar demasiado desde cualquier estación real para ver los efectos, los pasos implacables de las políticas de más de una década. Allí se percibe en la piel que no es bello caminar, ni cruzarse con alguien al caminar, son días grises de gente triste que está encerrada en su tristeza, para la cual el afuera es una amenaza imprecisa, un golpe de pánico que golpea la puerta.

Ciudades atrincheradas, puentes levantados o acordonados, paredes para no ver ni oír. Perros y alarmas. Allí comprendo, definitivamente que el terror y la exclusión son el verdadero y permanente piquete que no nos deja circular en una misma sociedad, que nos hace caminar sin ver al otro, sólo viendo su amenaza latente, ahí vamos con los poros cerrados, los ojos impermeables, el alma en una caja cerrada.

La casa con llaves y las llaves arrojadas para siempre. Entonces, comprendo que podemos estar perdidos, que cualquier pequeña y certera alegría puede ser efímera, si no podemos ver nada nuevo, si no hay otro ser - humanamente igual - después de la puerta, afuera del auto, deteniendo el tránsito.

Dirección: Juan B. Vago 36, (1834) Temperley, Provincia de Buenos Aires - ARGENTINA
E-Mail
: inventivasocial@infovia.com.ar

Austria 
Wolfgang Ratz

Poemas - Wolfgang Ratz

Wolfgang Ratz nació en Bilbao (Euskadi/España) en 1959 pero ha vivido desde su niñez en Viena. Estudió pintura y gráfica en la Academia de Artes Aplicadas de Viena y traducción de español, francés e inglés en la Universidad de Viena. Escribe cuentos y poesía desde 1982 y canciones en español y alemán desde 1985. Sus textos han aparecido en diversas revistas literarias y antologías. En 2002 la editorial Grasl publicó su poemario "Zimt und Metall" (Canela y metal). Es cofundador de la Casa Cultural Colom-biana de Viena, la Asociación de Autores Latinoamericanos en Austria (ALA), y es miembro de la junta directiva de la Asociación de Autores Austríacos (ÖSV). Edita la revista La barca de papel.

El grito

si el gobierno te ofrece
un silencio perfecto
nunca olvides de ofrecerle un grito
aunque sea imperfecto

Palabras

palabras corren por mis manos como el agua
palabras frías
hasta el recuerdo del dolor ya nos abandona
palabras transparentes
sin sombra ni forma
mas livianas que el aire
siempre a disposición
nó y nó
perfidia de las palabras bellas

quiero construir una palabra
opaca y dura
desobediente y desesperada
palabra amiga o enemiga
amiga y enemiga
indecible y silenciosa
fuerte y muda

E-Mail: wolfgang.ratz@chello.at